O pioneirismo feminino em Brasília

A construção de Brasília trouxe grandes mudanças para a população brasileira. A ocupação do Planalto Central quase vazio e sem muita comunicação com o resto do país foi um recomeço, uma saga que reverbera até hoje e continua inspirando as pessoas. E, para as mulheres que participaram dessa epopeia, as transformações foram ainda mais profundas. 

Naquele início, nada havia sido feito para recebê-las. Os acampamentos das construtoras só aceitavam homens solteiros, muitas moradias não tinham água ou luz, o suporte médico era precário, não havia pediatras para as crianças. Mas elas foram chegando e contribuindo silenciosamente com a construção da nova capital: cozinheiras, lavadeiras, prostitutas, engenheiras, médicas, professoras, freiras, esposas e mães. Seu protagonismo foi imenso, embora pouco registrado. 

Neiva Chaves Zayala, a Tia Neiva

 

Na Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante, onde se concentrava a maioria dos estabelecimentos comerciais do período, havia uma mulher para cada oito homens. Mas, apesar da diferença numérica, elas costumavam ser tratadas com muito respeito e raramente sentiam-se ameaçadas. A pioneira Cacilda Bertoni, que trabalhava como parteira, resumiu sua experiência: “Eram poucas mulheres, tanto que eu nunca tinha ninguém para me ajudar. Eu tinha duas crianças e tinha que cuidar da casa, das crianças e sair à noite para fazer os partos. Às vezes fazia mais de um parto por noite. Mas, pelo fato de ser mulher, nunca tive problema. Os homens tinham o maior respeito, admiração. Quando passava uma mulher por aquelas obras, eles paravam e ficavam olhando, como bicho do mato. Eu era atração de circo”. 

A vida não era fácil e conforto, realmente, não havia. Gerda Gumprich, esposa de um dos engenheiros que vieram para a construção da cidade, relatou: “Meu marido mandou uma foto do barraco que a gente ia morar na Cidade Livre. Primeiro eu levei um susto e, depois, eu fiquei rindo. Eu disse: esse barraco parece um galinheiro velho, impossível alguém morar nisso. Quando cheguei, em 1957, vi que era verdade, a nossa casa servia para guardar material de construção da sede provisória do Banco do Brasil”.

Mulheres na Vila Amaury

Mas, aos poucos, as mulheres foram conquistando seus espaços e ultrapassando o papel de coadjuvantes na saga da fundação de Brasília. A cidade representou, para muitas delas, uma quebra de paradigmas em relação aos controles sociais e morais que existiam em outros centros urbanos. A seleção por concurso, também, contribuiu para criar oportunidades para muitas mulheres conquistarem sua independência econômica e social longe de suas cidades de origem. 

Um exemplo desse pioneirismo foi a formação da primeira instituição de ensino público do Distrito Federal, inaugurada em 1957: a Escola Júlia Kubitschek. Localizada no acampamento operário conhecido como Velhacap, atual Candangolândia, seu corpo docente foi composto, em regime de urgência, pelas esposas e filhas de funcionários públicos que tinham diploma de normalista. Eram oito, ao todo. Com o decorrer do tempo e o aumento dos alunos, o processo seletivo foi sendo ampliado para docentes de todo o Brasil, que chegavam por meio de concurso. No final de 1959, já eram mais de 100 professoras primárias para atender 4.682 estudantes. 

Professoras na Escola Julia Kubitschek
Professoras na Escola Julia Kubitschek

 

Não podemos deixar de citar, também, algumas mulheres que marcaram seus nomes na história daqueles anos iniciais da capital e são lembradas até hoje. Como Neiva Chaves Zayala, a Tia Neiva, primeira caminhoneira da construção de Brasília e fundadora do Vale do Amanhecer. Ou Eleonora Quadros, uma das sócias da construtora M.M.M Quadros, que foi a primeira mulher a dirigir uma empresa na capital, ainda antes da inauguração. E Coracy Pinheiro, esposa do presidente da Novacap, Israel Pinheiro, que comandou as Pioneiras Sociais, uma instituição filantrópica que foi o embrião da Rede Sarah.

Famosas ou anônimas, o papel das mulheres para o sucesso de Brasília foi, e continua sendo, fundamental. Uma herança que é orgulho e inspiração para todos nós.

Maria da Luz no Congresso Nacional.

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