Como cuidar da saúde mental sem sair de casa

Por: Marcus Santos

A vida pós-moderna trouxe consigo muitos avanços e muitos desafios. É evidente que a tecnologia e a globalização nos permitem fazer coisas que nunca imaginamos antes e a ideia de progresso permanece mais forte do que nunca no inconsciente coletivo. No entanto, a aglomeração de pessoas nas grandes cidades, o desperdício de recursos naturais e o distanciamento social são grandes obstáculos para que nos sintamos bem conosco e com aqueles que estão à nossa volta.

Felicidade
A nossa felicidade na maioria das vezes está relacionada a fatores externos. Acreditamos que dependemos de várias pessoas e objetos para sermos felizes quando na realidade a felicidade está muito mais próxima do que imaginamos: dentro de cada um de nós. Como seria desenvolver um espaço interno no qual podemos ser felizes sem depender de nada e ninguém? Como seria saber que meu lar é o meu corpo e posso estar bem em qualquer lugar?

As catástrofes, pandemias e guerras são cada vez mais frequentes e por muitas vezes nos obrigam a nos isolarmos em casa. O isolamento e o medo de perder sua própria vida ou a vida de alguém que nos é querido aterroriza nossas mentes e tira nossa paz, e é importante encontrarmos ferramentas para nos mantermos em equilíbrio mesmo em tempos caóticos. Podemos entender que sempre haverá sofrimento no mundo, se manifestando de diversas formas. A maioria dos eventos em nossas vidas estão fora de nosso controle e cabe a nós cultivarmos boas qualidades para que estejamos sempre bem conosco e com os demais.

Meditação
A meditação é uma ferramenta essencial que pode nos ajudar a recuperar a resiliência de forma que sejamos capazes de atravessar todas essas crises que vem e vão. Meditar nada mais é do que focar a nossa atenção ao que ocorre no momento presente por meio da observação das sensações do corpo e dos estímulos que chegam aos nossos cinco sentidos. À medida que nos sentamos em uma posição confortável e observamos o ar que entra e que sai do corpo, estamos praticando a ancoragem no momento presente. Estando ancorados no aqui e agora, é possível enxergarmos a vida como ela realmente é, compreendendo a natureza de nossas emoções.

Nos momentos em que precisamos nos resguardar em casa, em detrimento de grandes mudanças em nossas vidas, devemos utilizar a prática da meditação para que não nos deixemos levar por ideias fantasiosas que nossas mentes criam. Em condições de isolamento, a principal emoção que experienciamos é o medo. A emoção do medo é um mecanismo de sobrevivência necessário, porém não precisamos sentir medo a todo momento.

Na concepção dos professores de meditação Vipassana, o medo é composto de cinco elementos: confusão, aversão, a noção do perigo, um senso de fraqueza e o desejo de escapar. Quando nos deparamos com um medo real, a tendência é que esses elementos nos mobilizem para resolver o problema, e isso é bom. O que prejudica nossa saúde mental e física é o medo excessivo. Não podemos nos deixar levar pelos truques de nossa mente que tende a criar fantasias e antecipar os problemas de forma tóxica. Meditando, adquirimos a capacidade de cessar a confusão e aversão perante um desafio e com isso perdemos a noção de perigo, nos sentindo fortalecidos e acreditando que poderemos encontrar uma solução, consequentemente, não teremos desejo de escapar e não ficaremos ansiosos.

A ansiedade é uma consequência de nossos medos. A ansiedade consiste em antecipar o problema e procurar soluções antes que ele aconteça, sendo que na maioria das vezes ele nem chega a acontecer! Um exemplo que traz ansiedade para muitos de nós é a doença. A ideia de que nosso corpo vai envelhecer, adoecer e morrer nos traz pavor e criamos a ilusão de que podemos evitar esses acontecimentos. Quando ficamos doentes, imediatamente tendemos a sentir medo da morte e buscamos maneiras de evita-la. Não há nada de errado em cuidar de nossa saúde e nos medicarmos quando ficamos doentes, o prejudicial é ficar ansioso com medo do que pode vir a acontecer. Se meditamos, somos capazes de viver o momento presente, lidando com os fatos concretos a cada momento e sendo realistas. Dessa forma, a mente fica tranquila e o corpo pode até mesmo se recuperar mais rápido pois não estamos estressados e ansiosos.

A importância do momento presente
Em tempos de doenças e pandemias, devemos praticar o cultivo do momento presente. Ajahn Jayasaro, um proeminente professor meditação Vipassana, nos indica alguns exercícios de plena atenção quando enfrentamos as maledicências do corpo. O primeiro exercício é ter plena atenção da ansiedade como um fenômeno que afeta o corpo e a mente.

Não devemos lutar contra ela e nem nos entregarmos. Podemos enxergar os pensamentos ansiosos simplesmente como pensamentos, como nuvens passando pelo céu. Também podemos ver as sensações físicas meramente como sensações, partes da natureza. Respirando profundamente, podemos imaginar a ansiedade saindo do corpo com a expiração e imaginando a tranquilidade e clareza entrando no corpo e na mente com a inspiração.

O segundo exercício é ter plena atenção ao realizar as tarefas do dia a dia, por exemplo tendo plena atenção durante os vinte segundos em que lavamos as mãos. Sempre que percebermos que estamos realizando uma atividade e nossa mente não está presente, fazemos o exercício de retornar nosso foco para a ação do momento. O terceiro exercício é desenvolvermos a plena atenção como refúgio interior através de períodos de contemplação e meditação. A meditação ajuda a criar um oásis silencioso de calma interior em meio a toda confusão da vida diária. O quarto exercício é termos atenção aos medos dos que estão a nossa volta. Não sejamos descuidados. Não sejamos egoístas no uso de recursos preciosos.

Fiquemos juntos de amigos que pensam como nós e ofereçamos assistência a qualquer pessoa mais velha ou criança com fome. É importante nos comunicarmos o melhor que pudermos e encorajarmos os demais a se comunicarem conosco. O quinto exercício, na minha opinião um dos mais importantes, é estarmos atentos ao uso das mídias sociais. Podemos restringir o nosso consumo de notícias em tempos de crise, checando-as apenas duas vezes por dia.

Devemos evitar mídias sociais não confiáveis que espalham o medo ou estão cheias de curas milagrosas. Se tivermos filhos, podemos nos assegurar que eles tenham essa mesma contenção. O sexto e último exercício é estarmos plenamente atentos às oportunidades de passarmos algum tempo de qualidade com nossas famílias e amigos, mesmo que virtualmente. Provavelmente praticando esses exercícios seremos capazes de atravessar qualquer desafio em nossas vidas.
Desejo que tenhamos a certeza de que a impermanência é uma verdade em nossas vidas.

Compreendendo que nada dura para sempre, talvez sejamos capazes de abrandar os nossos sofrimentos e os sofrimentos dos demais. A meditação pode ser uma ferramenta cada vez mais presente em nossas vidas de forma que tenhamos energia para cultivar um bom coração e boas intenções. O medo, a raiva e a culpa podem ser acolhidos por nós como emoções comuns e que assim podemos aprender a lidar com nossas emoções. Espero que todos os seres do mundo estejam livres das catástrofes, pandemias e guerras para que juntos possamos desfrutar da graça desse imenso universo!

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